quarta-feira, 7 de novembro de 2018

FLIPERAMOSFERA


O mercado internacional como único vetor de sucesso do videogame independente não tem acolhido todos os autores e negligencia os jogadores locais, que tem pouca ou nenhuma chance de encontrar os títulos nacionais - em especial aqueles jogadores que não são "gamers", que não sabem o que quer dizer "indie games", que não encontram esse videogame tão diferente nos caminhos do seu cotidiano.

Não é errado ou ruim fazer sucesso, ter reconhecimento internacional. Mas nem todos os jogos são vendáveis, nem todos os conteúdos são acessíveis para um público global, nem todos os autores do videogame estão alinhados com as tendências do mercado ou dispostos a capitular de seus compromissos éticos, estéticos e políticos para "fazer sucesso". E é importante que a existência desse tipo de trabalho esteja garantida. Não podemos deixar que o dinheiro seja o desenhista da nossa cultura.

Por isso tenho me dedicado a desenvolver um conceito que busca solucionar esses problemas: a fliperamosfera. O renascimento da cultura do fliperama na busca de uma cena de videogame independente economicamente sustentável e com relevância local.

O GABINETE

A fliperamosfera não tem a ver com nostalgia gamer. Antes de encontrar novos caminhos pro dinheiro, precisamos encontrar novos olhares. Não só de quem joga o videogame mainstream e não conhece o independente, mas também de quem não está familiarizado com o videogame em geral. Estes pouco se entusiasmam com o que acontece dentro da tela. Pra seduzir esse olhar o videogame precisa se transformar em objeto, em carro alegórico. Quanto mais conseguir se distanciar de uma iconografia arcade, melhor. O videogame tem que crescer pra fora do jogo e superar seus símbolos mais batidos se quiser ir além do público gamer. Não importa quão profundo e trabalhoso seja o jogo acontecendo dentro da tela, o gabinete em torno dela é mais importante pra quem não se importa com jogo nenhum.

Uma vez seduzidas, as pessoas vão descobrir que esse mundo que o gabinete apresenta continua dentro da tela. E vão saber que o que está lá dentro não é necessariamente o mais importante - porque na sua história pessoal de aproximação com o videogame, não foi. Por que precisa ser? Como no carnaval que produzem as escolas de samba, e também como no hip hop com os seus elementos, o videogame precisa se abrir se quiser ser atraente pra diferentes tipos de pessoas, que se interessam por diferentes campos de ação. É importante que as pessoas vejam que dá pra se aproximar do videogame por vários lados, que dá pra ser autor no videogame sem precisar trabalhar de dentro da tela, sem precisar dominar os mistérios assustadores da computação. Ok, já é possível acessar tudo isso com atalhos e facilidades, mas essa possibilidade precisa ser reconhecida logo de cara, amor à primeira vista, é de sedução mesmo que estamos falando.

Algo que nos distrai é a certeza do videogame como um campo multidisciplinar, já que inclui audiovisual, matemática, psicologia e virtualmente infinitos campos de conhecimento. Isso está certo, mas é diferente do hip hop e do carnaval, porque o videogame não tem mais um caráter ritualístico, de fruição coletiva. Perdeu isso quando se tornou entretenimento privado, o "arcade na sua casa". O arcade nunca vai ser na sua casa, isso é impossível. A cultura do streaming até tenta recuperar isso, mas não é a mesma coisa e é prejudicada por uma economia da fama que achata seu potencial de diversidade. O fliperama tem que voltar, mas voltar pelas nossas mãos e não como produto importado.

Mas economicamente sustentável como? Simples: cobrando fichas.

PIRATA DE PRATA E GANGUISMO ESTÉTICO



O primeiro gabinete da fliperamosfera já existe, é o Pirata de Prata. Nossa ideia é fabricar várias unidades pra ocupar diferentes espaços ao mesmo tempo, montando uma rede de Piratas de Prata que apresentam mostras de videogame periódicas. Nossa utopia fliperamosférica imagina esses espaços sendo ocupados não só pelos Piratas mas também por outros gabinetes de outras equipes, compondo rivalidades e alinhamentos estéticos, batalhas e desfiles. Uma rivalidade hip hop que seja uma afirmação do outro com suas diferenças ao invés da competição liberal indie que faz os colegas floparem na Steam, que depende desse fracasso pra se manter no topo. Queremos que ao lado do PIRATA DE PRATA estejam o CAVALO DE TRÓIA, o DANÇARINO DE LATA, o LACRE ELETRÔNICO, a PUTARIA TOTAL GAMES & AVENTURAS, a NOVA ESCOLA DO VIDEOGAME MALDITO, e mais qualquer coisa que formos capazes de imaginar! Façamos gabinetes de fliperama como se faziam bandas punk! Ainda dá tempo de impedir que o videogame nos cause vergonha!

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